Feita originalmente apenas com água, mel e fermento, o hidromel é uma das bebidas mais antigas do mundo. A criação da “bebida dos deuses” é incerta, mas os primeiros registros ultrapassam 10 mil anos, e são encontrados nas civilizações nórdicas, asiáticas e até entre os povos originários brasileiros.
Tradição que atravessou séculos e hoje é cultivada em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Em 2017, o publicitário Felipe Nogueira criou a primeira hidromelaria da região.
A proposta do negócio é resgatar a história da bebida e reinterpretá-la dentro da identidade brasileira. Os primeiros contatos do Felipe com o hidromel vieram por meio de obras com temática de fantasia medieval, onde a bebida aparece com frequência.
“Nasceu a partir da minha relação pessoal com a enologia, da produção de bebidas artesanais, do meu interesse por história medieval e cultura pop, e principalmente, da minha relação desde cedo com trabalhos práticos e manuais, herdados dos costumes rurais dos meus avós”, conta.
Referências lendárias
Os rótulos produzidos por Felipe são inspirados na cultura geek, mitologia e fantasia medieval. “Isso não é só estética, é estratégia de comunicação: aproximar o público moderno de uma bebida ancestral, por meio de referências que ele já consome hoje“, afirma.
A cultura nacional também é valorizada. Um dos rótulos, inspirado nos povos originários do Brasil, é feito com mel de abelhas Jataí — espécie nativa e exótica, por não possuir ferrão. “Isso traz identidade sensorial única para os hidroméis, valorizando terroir, flora local e características regionais”, explica.
Felipe já recebeu mais de 30 prêmios nacionais e internacionais. Em 2024, um dos rótulos foi considerado o melhor hidromel da América Latina pelo Brasil Cup, maior concurso latino-americano de bebidas alcoólicas.
Ingrediente secreto
A maior inspiração de Felipe foi a avó, Eva de Matos Correia, que faleceu na última semana. “Ela viveu no interior e sempre me ensinou, ainda criança, a colher frutos, respeitar o tempo das coisas e entender o valor do processo. Foi com ela que aprendi que produzir algo vai muito além da técnica: envolve paciência, observação e cuidado”, relembra.
Para agradar o paladar da avó, o neto produziu rótulos especiais, com matérias-primas colhidas na horta dela.
Apesar de não serem comercializados, Felipe garante que estes são os hidroméis mais valiosos que ele já criou: “Ali dentro não está só técnica. Está uma continuidade de existência. Dentro de cada garrafa, a minha vó sempre estará viva”, finaliza.