O El Niño pode começar mais cedo do que o previsto, e os sinais já aparecem do outro lado do mundo. O supertufão Sinlaku, que avança pelo Pacífico Oeste nesta semana com ventos de até 280 km/h, não oferece risco direto ao Brasil, mas as condições oceânicas em que se formou indicam que o aquecimento do Pacífico equatorial está se acelerando. Para o Rio Grande do Sul, isso significa mais chuva já nos próximos meses.
Murilo Lopes, meteorologista da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), explica que o possível início antecipado do El Niño está ligado a um “empurrão” extra no deslocamento de águas quentes no Oceano Pacífico — etapa essencial para a formação do fenômeno.
Segundo o especialista, o supertufão se formou sobre águas excepcionalmente quentes na região próxima à Indonésia e, combinado a outro ciclone que ocorreu na semana anterior, gerou rajadas de vento soprando de oeste. Esse tipo de vento atua no sentido contrário ao padrão normal da região e acaba acelerando o processo.
Esse movimento empurra as águas quentes acumuladas no Pacífico Oeste em direção ao centro do oceano, onde fica a faixa equatorial responsável pela formação do El Niño.
— O supertufão, combinado à posição de outros sistemas atmosféricos, pode atuar como gatilho para manter condições favoráveis ao desenvolvimento do El Niño. Quando ventos de oeste anulam o efeito dos alísios, o deslocamento das águas mais quentes é facilitado — explica Lopes.
Papel dos ventos e do calor no oceano
Os ventos alísios são correntes de ar que normalmente sopram de leste para oeste na faixa equatorial e ajudam a “segurar” o calor no lado oeste do Pacífico. Durante a La Niña, fenômeno que predominou nos últimos meses, esses ventos ficam mais intensos e reforçam esse acúmulo de água quente longe do centro do oceano.
Quando esses ventos enfraquecem, o cenário muda: a água quente começa a retornar em direção ao Pacífico Central, em pulsos conhecidos como ondas de Kelvin. O que o tufão fez foi acelerar esse deslocamento.
— O supertufão é um sintoma dessas águas bastante quentes próximas à Indonésia e também contribui para favorecer esse transporte de calor para o Pacífico Central, acelerando o processo de formação do El Niño — reforça o meteorologista.
Outro indicativo é a temperatura da superfície do mar na faixa equatorial do Pacífico, que já está próxima de meio grau acima da média histórica — o mínimo necessário para caracterizar o fenômeno. Com o aquecimento persistindo, a projeção é de que o El Niño se estabeleça ainda neste outono, entre abril e maio.
— Nós estamos agora num cenário em que, provavelmente, esse El Niño começa ainda neste outono — aponta Lopes.
Transição rápida após a La Niña
O Rio Grande do Sul saiu recentemente de um período de La Niña que, embora não tenha sido tão prolongado quanto em outros anos, provocou falta de chuva, especialmente no oeste e noroeste do Estado. Agora, o clima está em uma fase de neutralidade, que deve durar pouco.
— A gente vai ter uma rápida transição para o fenômeno El Niño. Devemos ficar por um período muito curto em condição de neutralidade — comenta Lopes.
Os efeitos já começam a aparecer. A última semana registrou um episódio de chuva mais expressivo no Estado em 2026, e a tendência é de que as precipitações se tornem mais frequentes nas próximas semanas, antes mesmo de o El Niño estar plenamente estabelecido.
Há risco de um “Super El Niño”?
O El Niño ocorre quando há aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, o que altera a circulação da atmosfera e muda padrões de chuva e temperatura em várias regiões do planeta. No sul do Brasil, esse cenário costuma estar associado a períodos mais chuvosos.
A intensidade varia conforme o quanto a temperatura do oceano se afasta da média. Pelos critérios da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a classificação é a seguinte:
- Fraco: entre 0,5ºC e 0,9ºC acima do normal
- Moderado: entre 1,0ºC e 1,4ºC
- Forte: a partir de 1,5ºC
Em casos mais extremos, quando esse desvio ultrapassa os 2ºC de forma persistente na região central do Pacífico — chamada de área El Niño 3.4 —, alguns especialistas usam o termo “Super El Niño” para diferenciar episódios fora do padrão. A expressão não é oficial, mas ajuda a indicar eventos mais intensos.
— Os modelos de previsão têm convergido para um cenário com probabilidade razoável de evolução para um El Niño forte entre 2026 e 2027 — afirma Murilo Lopes.
Projeções do Centro Europeu de Previsão Meteorológica de Médio Prazo indicam, inclusive, a possibilidade de um evento de intensidade excepcional entre o fim de 2026 e o início de 2027, com níveis raramente observados.
Apesar disso, há cautela. O climatologista e professor de meteorologia Glauco Freitas ressalta que esse tipo de análise deve ser tratada como tendência, e não como previsão fechada.
— É uma projeção deles. É preciso avançar com cautela antes de afirmar com precisão — reforça.
Os paralelos históricos citados pelos especialistas incluem os anos de 1982, 1997 e 2015, todos marcados por episódios intensos e registros expressivos de chuva no Rio Grande do Sul, especialmente na primavera.
Diferença em relação a 2024
Para maio, a projeção inclui a passagem frequente de frentes frias sobre o Rio Grande do Sul, com potencial para provocar cheias em rios.
O aquecimento global intensifica esse cenário: oceanos mais quentes significam mais vapor d’água na atmosfera, o que favorece volumes elevados de chuva em períodos mais curtos.
— Estamos prevendo, para o próximo mês de maio, a frequência de frentes frias provocando chuvas no Rio Grande do Sul que podem ocasionar cheias. Nada comparado a 2024, isso é importante frisar — pondera Lopes.
Os especialistas ouvidos pela reportagem convergem em um ponto: os efeitos mais intensos não devem ocorrer no curto prazo. O momento ainda é de transição, com impacto gradual sobre o clima.
A preocupação maior se concentra na primavera, entre setembro e novembro, período em que o El Niño costuma provocar efeitos mais relevantes no sul do Brasil.
— Esse cenário já é projetado para a primavera, quando o El Niño estará mais consolidado e tende a afetar com mais força o Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná — diz Freitas. — A transição do inverno para a primavera deve ser rápida, com dias marcados por chuva intensa e temporais frequentes — acrescenta Lopes.
O que pode diferenciar um eventual episódio mais forte é a combinação de fatores. O aquecimento adicional dos oceanos, já em curso, aumenta a energia disponível no sistema climático.
— Com mais calor vindo do oceano, os efeitos tendem a ser mais intensos. Isso amplia o potencial dos eventos em escala global — resume Freitas.
Ainda assim, a comparação direta com 2024 exige cautela. Naquele ano, a catástrofe de maio ocorreu após meses de El Niño já consolidado, com a atuação simultânea de outros fatores atmosféricos.
— Não é possível afirmar que os eventos ocorrerão da mesma forma, mas é um quadro que exige monitoramento — reforça Lopes.
Cheias seguem sendo um risco
Cheias em áreas próximas a rios seguem sendo um risco a monitorar, especialmente em períodos de chuva mais concentrada.
O meteorologista lembra que esse tipo de ocorrência é comum no Rio Grande do Sul entre maio e outubro, independentemente do fenômeno, mas pode ganhar intensidade com o aumento do calor nos oceanos.
— Por mais que sejam cheias típicas, às vezes essa chuva pode ser mais expressiva em um intervalo curto, o que traz transtornos — acrescenta Lopes.
Com o El Niño se consolidando ao longo dos próximos meses, o inverno gaúcho também deve ser afetado. A projeção é de mais chuva e frio menos frequente do que o habitual para a estação.
— Deve ser um inverno marcado por chuvas e por episódios de frio muito esporádicos. Não devemos ter aquele frio mais constante como no ano passado. Inclusive, podemos ter alguns dias de temperatura alta durante a estação. Não vai deixar de fazer frio, mas será uma situação bem mais pontual — comenta o meteorologista.
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