A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) confirmou nesta quinta-feira (11) a formação do El Niño. O fenômeno climático natural ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal.

O boletim da agência norte-americana indicou 63% de probabilidade de o fenômeno se tornar muito forte, com potencial para figurar entre os maiores registrados desde 1950. No Rio Grande do Sul, a consolidação do cenário reacende o alerta para chuvas extremas.

O desenvolvimento do fenômeno no primeiro semestre de 2026 já era esperado após meses de aquecimento gradual no Pacífico. Em maio, a chance apontada era de 82%.

O estado ainda lida com as consequências da tragédia climática de 2024, quando o sistema de proteção de Porto Alegre colapsou e o nível do Guaíba atingiu 5,37 metros. Naquele ano, a catástrofe resultou da combinação de um El Niño iniciado em 2023, frentes frias e o aquecimento do Oceano Atlântico. Mais de 180 pessoas morreram e quase 95% dos municípios gaúchos foram afetados.

O que é o fenômeno El Niño?

El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul).

Quais as consequências práticas para o RS?

No Brasil, os efeitos do El Niño são distintos: enquanto provoca secas nas regiões Norte e Nordeste, aumenta significativamente o volume e a frequência das chuvas na Região Sul.

A relação entre El Niño e eventos extremos no Sul do Brasil aparece em um estudo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, publicado em 2025 na revista científica Communications Earth & Environment. A pesquisa analisou 45 anos de dados de vazão de rios em 788 estações de monitoramento da América do Sul e concluiu que o fenômeno aumenta a probabilidade de cheias na Bacia do Prata, região que abrange parte do território gaúcho.

A meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo, avalia que o El Niño atual tem intensidade comparável à de 2023. Ela projeta que os efeitos locais comecem no inverno, mas ressalta que o período de maior risco é a primavera, estação que historicamente já concentra eventos de precipitação intensa na região Sul.

Para o pesquisador Rodrigo Paiva, do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é difícil afirmar se haverá uma cheia igual à de 2024, mas o El Niño exige a aceleração de medidas preventivas.

Entre as melhorias citadas pelo especialista estão investimentos na Defesa Civil, em sistemas de previsão e na reconstrução de pontes e estradas. As novas estruturas foram projetadas de forma mais resiliente para suportar os impactos das mudanças climáticas.

Contudo, o pesquisador alerta que a principal vulnerabilidade persiste na capital. O sistema de proteção contra cheias de Porto Alegre, formado pelo Muro da Mauá, diques e casas de bombas, foi severamente danificado e ainda não está totalmente recuperado.

Conforme Paiva, apresentações do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) mostram que apenas parte das falhas foi resolvida, enquanto a maioria segue em fase de projeto ou com obras em andamento. Caso ocorra uma cheia de grande magnitude, partes da cidade podem voltar a alagar.

O especialista do IPH conclui que a preparação precisa ser contínua, pois eventos extremos podem ocorrer em qualquer ano. Ele avalia que a memória recente da população sobre a tragédia auxilia na mitigação de danos, mas defende que as estratégias fiquem para a posteridade através de planos permanentes.

*G1RS

*Imagem: IA