O mais recente boletim da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos, atualizado nesta quinta-feira (9), revela que aumentou de forma significativa o risco de um El Niño “muito forte” no final deste ano. Como o fenômeno está associado ao aumento da chuva no sul do Brasil, isso aumenta o nível de alerta em relação a possíveis cheias no Rio Grande do Sul.

De acordo com o relatório, há um risco de 81% de que o aquecimento da água do Oceano Pacífico fique pelo menos 2ºC acima da média histórica — o que configuraria o que é chamado informalmente de “super El Niño”. Antes disso, a entidade americana calculava uma probabilidade de 63% de um episódio de grande intensidade. A mudança sinaliza um súbito agravamento do cenário.

O texto divulgado pela NOAA informa que “há uma probabilidade de 81% de um El Niño muito forte durante outubro-dezembro, que se classificaria entre os maiores eventos (…) nos registros históricos desde 1950″. A análise observa que eventos mais intensos não causam, necessariamente, impactos típicos em todos os lugares. Porém, podem “inclinar significativamente as probabilidades em favor dos resultados esperados”. Ou seja, agravar o risco de chuvas fortes e eventuais enchentes e deslizamentos de terra no sul do país.

Longa duração também preocupa

A conclusão dos especialistas é de que o fenômeno “continua e vai se fortalecer até o final do ano, com 97% de chance de que vai durar até o começo da primavera de 2027″ (outono no Hemisfério Sul).

Conforme Fernando Fan, hidrólogo do IPH da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o longo período de tempo do fenômeno “talvez seja a notícia mais mais impactante” da nova previsão.

Conforme demonstram os estudos do IPH, o risco de haver cheias no Estado são dobradas durante a vigência do El Niño. Fan complementa:

— Aquela enchente que tipicamente acontece uma vez a cada 10 anos, por exemplo, no Vale do Taquari, passa a ser uma cheia com probabilidade de ocorrer uma vez a cada cinco anosSe tinha 10% de risco de acontecer, passa a ter 20%. Com o El Niño durando mais tempo, temos mais meses com esses riscos dobrados.

Na previsão anterior, a NOAA não determinava explicitamente um período de extensão do fenômeno. Mencionava apenas a expectativa de que ganhasse força durante o inverno no Hemisfério Norte (verão no Brasil). 

Medidas urgentes

Conforme Fernando Fan, as informações mais recentes relativas ao comportamento do Pacífico reforçam a urgência de que os setores público e privado do Estado adotem as medidas preventivas necessárias, que incluem planos de contingência, monitoramento e eventuais emissões de alertas — além da continuidade das obras de contenção que, em parte, vão demorar mais tempo para ficarem prontas.

O relatório da NOAA observa que, no momento, a temperatura da água na região do Pacífico que serve como referência para avaliar o fenômeno está em 1,2ºC além da média histórica — o que já representa uma intensidade moderada. Os especialistas observam ainda que a temperatura da água abaixo da superfície continua subindo. Isso costuma funcionar como um “combustível” que impulsiona a intensidade do fenômeno climático.

A classificação do El Niño

*GZH

*Foto: Ricardo Stuckert / PR